Imagine uma estrela gigante em seus últimos momentos de vida, expelindo camadas inteiras de hélio antes de explodir violentamente. Agora imagine que conseguimos “ouvir” essa explosão através de ondas de rádio pela primeira vez na história. Isso acabou de acontecer. Astrônomos detectaram sinais de rádio de uma supernova tipo Ibn, um evento extremamente raro que revela segredos sobre como estrelas massivas morrem. Essa descoberta mudou nossa compreensão sobre os momentos finais de algumas das estrelas mais impressionantes do universo.

Crédito: NSF/AUI/NSF NRAO/B. Saxton
O Que Torna a Supernova Tipo Ibn Tão Especial
Supernovas são explosões estelares poderosas que marcam o fim dramático de uma estrela. Contudo, nem todas as supernovas são iguais. As do tipo Ibn representam uma categoria raríssima, onde a estrela explode diretamente em um ambiente rico em hélio que ela mesma expeliu pouco antes do colapso final.
Dessa forma, essas explosões funcionam como cápsulas do tempo cósmicas. Elas carregam informações preciosas sobre o que aconteceu nos últimos anos de vida da estrela. Até agora, os cientistas só conseguiam estudar esse material através de observações ópticas, que ofereciam pistas limitadas. Portanto, a detecção de ondas de rádio representa um avanço significativo.
A supernova observada, chamada SN 2023fyq, foi monitorada pelo Very Large Array durante 18 meses. Segundo a equipe liderada por Raphael Baer-Way, estudante de pós-graduação da Universidade da Virgínia, as ondas de rádio permitiram “visualizar” a última década da estrela antes de sua morte. Além disso, revelaram um período intenso de perda de massa nos cinco anos anteriores à explosão.

A Via Láctea aparece acima, mostrando uma das cerca de 300 noites claras por ano que tornam este local perfeito para estudar o Universo com o VLT, o instrumento óptico mais avançado do mundo.
Como Funcionam as Ondas de Rádio em Astronomia
As ondas de rádio são invisíveis aos nossos olhos, mas carregam informações valiosas sobre eventos cósmicos violentos. Quando uma supernova explode, o material ejetado em alta velocidade colide com o gás ao redor, criando ondas de choque poderosas. Essas ondas aceleram partículas carregadas, gerando emissões de rádio que podem ser captadas por radiotelescópios na Terra.
Por outro lado, observações em luz visível mostram apenas a “superfície” da explosão. As ondas de rádio penetram mais profundamente, revelando detalhes sobre a densidade, composição e distribuição do material ao redor da estrela moribunda. Assim, complementam outras técnicas de observação.
No caso da SN 2023fyq, os dados de rádio e raios-X trabalharam juntos. Enquanto os raios-X indicavam a temperatura extrema do choque, as ondas de rádio mapeavam a estrutura do ambiente circunstelar. Essa combinação permitiu que os astrônomos reconstruíssem a história dos últimos anos da estrela com precisão sem precedentes.
A Dança Mortal de Duas Estrelas
Mas por que uma estrela perderia tanto material hélio logo antes de explodir? A resposta provavelmente envolve uma companheira estelar. De acordo com o modelo proposto, a estrela que explodiu fazia parte de um sistema binário — duas estrelas orbitando uma à outra.
Nesse cenário, a estrela maior já havia perdido seu envelope de hidrogênio, restando principalmente hélio. Sua companheira seria uma estrela de nêutrons, um objeto ultra-denso formado pelo colapso de uma estrela anterior. Enquanto as duas se aproximavam gradualmente, a gravidade intensa da estrela de nêutrons arrancava material da estrela de hélio, formando um disco caótico ao redor do sistema.
Eventualmente, ocorreu a explosão. Contudo, o mecanismo exato ainda permanece um mistério. O que sabemos é que o material expelido pela supernova colidiu violentamente com o disco de massa previamente perdido, gerando os poderosos sinais de rádio detectados pelos astrônomos.

Cinco Anos de Agonia Estelar
Uma das revelações mais impressionantes deste estudo envolve a taxa de perda de massa. A equipe calculou que a estrela expeliu material a uma velocidade assombrosa: até 0,4% da massa solar por ano. Para contextualizar, isso significa que em apenas cinco anos, a estrela perdeu o equivalente a duas vezes a massa da Terra.
Portanto, esse período representa uma fase dramática e breve na vida da estrela. A Dra. A.J. Nayana, da Universidade da Califórnia em Berkeley e co-líder da investigação, ressalta que o estudo sonda o material ejetado anos antes da explosão. Assim, os cientistas identificaram que a fase intensa de perda de massa ocorreu nos últimos 0,7 a 3 anos de vida da estrela.
Essa descoberta preenche uma lacuna crucial no entendimento de como estrelas massivas encerram suas vidas. Além disso, fornece evidências diretas sobre os mecanismos que impulsionam supernovas raras como a tipo Ibn, algo que até então permanecia principalmente no campo da teoria.
O Papel do Very Large Array
O Very Large Array, localizado no Novo México (EUA), é uma das ferramentas mais poderosas da astronomia moderna. Composto por 27 antenas dispostas em formato de Y, cada uma com 25 metros de diâmetro, o VLA funciona como um gigantesco radiotelescópio virtual.
Contudo, detectar sinais de rádio de supernovas distantes não é tarefa simples. Essas emissões são frequentemente fracas e transitórias, exigindo monitoramento contínuo e sensibilidade extrema. No caso da SN 2023fyq, o acompanhamento ao longo de 18 meses foi essencial para capturar a evolução completa do sinal.
Dessa forma, o sucesso desta observação abre caminho para estudos sistemáticos de supernovas usando radiotelescópios. O Dr. Wynn Jacobson-Galan, do Caltech e investigador principal do programa VLA, enfatiza que este estudo inaugurou uma nova abordagem para entender os estágios finais de certas estrelas massivas. Ele destaca ainda a necessidade de acompanhamento sistemático de eventos similares usando instrumentos como o VLA e o GMRT (Giant Metrewave Radio Telescope).

Créditos: ESO / G. Hüdepohl
Por Que Isso Importa para a Ciência
Estrelas massivas desempenham papéis fundamentais na evolução do universo. Quando explodem como supernovas, espalham elementos químicos pesados pelo espaço — carbono, oxigênio, ferro e muitos outros que formam planetas, oceanos e até mesmo nossos corpos.
Entender como essas estrelas morrem nos ajuda a compreender de onde viemos. Além disso, supernovas tipo Ibn são especialmente intrigantes porque envolvem cenários exóticos, como sistemas binários e fases extremas de perda de massa. Portanto, cada nova descoberta sobre elas ilumina aspectos únicos da física estelar.
Por outro lado, este tipo de pesquisa também demonstra o poder da astronomia multimessageira. Enquanto isso, combinar observações em diferentes comprimentos de onda — rádio, óptico, raios-X — permite montar um quebra-cabeça mais completo sobre eventos cósmicos complexos.
O Futuro das Observações de Supernovas
Esta detecção pioneira marca apenas o começo. Com a crescente sensibilidade dos radiotelescópios e programas dedicados de monitoramento, os astrônomos esperam identificar mais supernovas tipo Ibn nos próximos anos. Assim, será possível determinar se o comportamento da SN 2023fyq é típico ou excepcional.
Além disso, futuras missões espaciais e telescópios terrestres avançados prometem revelar ainda mais detalhes sobre os ambientes circunstelares. A combinação de dados de múltiplas fontes ajudará a refinar os modelos teóricos sobre evolução estelar e dinâmica de sistemas binários.
Dessa forma, a astronomia continua expandindo nossas fronteiras de conhecimento. Cada sinal de rádio capturado, cada fóton de luz coletado, nos aproxima um pouco mais de desvendar os mistérios do cosmos.
Ouvindo os Últimos Suspiros das Estrelas
A primeira detecção de rádio de uma supernova tipo Ibn representa um marco histórico na astronomia. Através das ondas invisíveis que atravessam o espaço, conseguimos testemunhar os momentos finais de uma estrela massiva e desvendar a história dramática de seus últimos anos. Portanto, essa descoberta não apenas enriquece nosso conhecimento sobre morte estelar, mas também demonstra o poder da observação multimessageira.
Será que estamos apenas começando a “ouvir” o universo de formas completamente novas? O cosmos guarda inúmeros segredos esperando para serem revelados, e cada nova tecnologia nos aproxima dessas respostas.
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Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é uma supernova tipo Ibn?
É uma explosão estelar rara em que a estrela detona envolta por material rico em hélio que ela própria expeliu anos antes da explosão.Por que a detecção em rádio é importante?
As ondas de rádio revelam informações sobre a densidade, a estrutura e a composição do ambiente ao redor da estrela, dados que não podem ser obtidos apenas com observações em luz visível.Quanto tempo a estrela perdeu massa antes de explodir?
Os dados indicam uma fase intensa de perda de massa entre cerca de 0,7 e 3 anos antes da explosão, com um pico especialmente forte nos últimos meses de vida da estrela.Indicação de Leitura
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Fonte: Artigo “Astronomers Make First Radio Detection of Rare Supernova Type, Revealing Secrets of Stellar Death” Publicado em public.nrao.edu
