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Por Que Objetos no Espaço Parecem Bonecos de Neve?

Você já olhou para uma foto tirada lá nos confins do sistema solar e se perguntou por que alguns objetos parecem bonecos de neve gigantes flutuando no espaço? Essa é uma das perguntas mais fascinantes da astronomia moderna — e a ciência finalmente tem uma resposta. Os chamados binários de contato são estruturas formadas por dois corpos esféricos grudados entre si, e entender sua origem nos conta muito sobre como o sistema solar nasceu.

Portanto, prepare-se para uma viagem até o limite do nosso bairro cósmico.

Imagem de Arrokoth capturada pela sonda New Horizons mostrando o objeto em formato de binário de contato no Cinturão de Kuiper.
Imagem de Arrokoth registrada em 1º de janeiro de 2019 pela sonda New Horizons durante seu sobrevoo histórico no Cinturão de Kuiper. Este é o retrato mais detalhado já obtido de um pequeno objeto transnetuniano, revelando sua estrutura em formato de binário de contato. Crédito: NASA.

O Que São os Binários de Contato no Espaço?

Os binários de contato são objetos espaciais compostos por dois corpos esféricos unidos, como se alguém tivesse empilhado duas bolas de neve uma sobre a outra. Dessa forma, o visual é quase cômico — mas a física por trás é pura elegância.

O exemplo mais famoso é Arrokoth, um objeto do Cinturão de Kuiper com cerca de 4 bilhões de anos. A sonda New Horizons, da NASA, sobrevoou Arrokoth em 1º de janeiro de 2019 e capturou as imagens mais detalhadas já registradas desse tipo de estrutura. Além disso, Arrokoth é o objeto mais distante e mais primitivo já explorado por uma nave espacial — uma verdadeira cápsula do tempo do início do sistema solar.

Segundo dados da NASA, cerca de um em cada dez planetesimais no Cinturão de Kuiper tem essa forma característica de boneco de neve. Ou seja, não estamos falando de uma raridade. Esses objetos são comuns — e isso significa que o processo que os forma também precisa ser comum.

Arrokoth, objeto do Cinturão de Kuiper em formato de binário de contato, fotografado pela sonda New Horizons durante sobrevoo em 2019.
Visão geral de Arrokoth, também conhecido como (486958) 2014 MU69. O objeto do Cinturão de Kuiper foi descoberto em 2014 com apoio do Hubble Space Telescope e explorado pela sonda New Horizons em 1º de janeiro de 2019. As imagens revelaram um corpo de dois lobos com formato semelhante a um “boneco de neve”, tornando-o o objeto mais distante e primitivo já visitado por uma nave espacial. Crédito: NASA.

Onde Ficam Esses Objetos Curiosos?

Para entender os binários de contato, primeiro precisamos falar sobre o Cinturão de Kuiper. Essa região fica além da órbita de Netuno, distante do caos que acontece entre Marte e Júpiter. Enquanto o cinturão de asteroides é um lugar agitado, cheio de colisões e fragmentações, o Cinturão de Kuiper é uma zona calma, onde objetos antigos flutuam praticamente intocados desde os primórdios do sistema solar.

Ali vivem planetesimais — os primeiros grandes corpos sólidos a se formarem a partir do disco de poeira e gás que originou tudo o que conhecemos. Contudo, o mais incrível é que muitos desses objetos estão tão bem preservados que estudá-los é quase como ler um diário do nascimento do sistema solar.

Por outro lado, justamente por ficarem tão isolados, esses objetos raramente colidem entre si. Assim, uma vez que dois corpos se unem, tendem a permanecer juntos por bilhões de anos — sem nada para quebrá-los.

Infográfico ilustrando a arquitetura do Sistema Solar com órbitas dos planetas internos e gigantes, Cinturão de Asteroides e Cinturão de Kuiper.
nfográfico mostrando a arquitetura do Sistema Solar, com destaque para os planetas do sistema solar interno, a área dos gigantes gasosos, o Cinturão de Asteroides e o Cinturão de Kuiper, onde se encontram objetos como Plutão e Quaoar. A imagem apresenta uma visão esquemática das órbitas planetárias e da estrutura geral do sistema planetário.

Crédito da arte: Andréa Cardoso. Designer bolsista: Lara Coelho. Equipe de Arte ACI – Reitoria. Instituição: Unesp.

A Simulação Que Explica Tudo

Durante muito tempo, os cientistas debateram como esses bonecos de neve cósmicos se formavam. As teorias anteriores dependiam de eventos raros ou fenômenos exóticos — o que não fazia sentido, já que os binários de contato são tão comuns.

Foi então que Jackson Barnes, um estudante de pós-graduação da Universidade Estadual de Michigan (MSU), criou a primeira simulação computacional capaz de reproduzir a forma de dois lobos de maneira natural. A pesquisa foi publicada no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e representa um avanço significativo para a astrofísica.

Além disso, as simulações anteriores tratavam os objetos como fluidos que simplesmente se fundiam em esferas — o que tornava impossível reproduzir a forma característica de boneco de neve. Barnes, portanto, adotou uma abordagem diferente: seu modelo permite que os objetos mantenham sua rigidez e se apoiem um sobre o outro de forma realista.

Como a Gravidade Cria Bonecos de Neve

O processo, segundo a pesquisa da MSU, começa de forma surpreendentemente simples. Uma nuvem de materiais minúsculos — pebbles, ou seja, pedrinhas com tamanho aproximado de grãos de café — começa a colapsar sob a ação da gravidade. Dessa forma, a nuvem se comprime e começa a girar.

Enquanto isso acontece, a rotação pode fazer com que a nuvem se divida em dois fragmentos separados que passam a orbitar um ao outro. Com o tempo, as órbitas vão diminuindo gradualmente — e os dois corpos se aproximam até se tocar suavemente e se fundir, mantendo cada um sua forma esférica.

É um processo elegante, lento e silencioso. Portanto, faz todo sentido que aconteça com frequência no tranquilo Cinturão de Kuiper.

Por Que Isso É Tão Importante?

Segundo o professor Seth Jacobson, coautor sênior do estudo, se cerca de 10% dos planetesimais são binários de contato, o processo que os forma não pode ser raro. Assim, o colapso gravitacional encaixa perfeitamente com o que os astrônomos observam.

Por fim, a descoberta vai além de explicar a forma de alguns objetos estranhos. Ela abre uma janela para entendermos como os blocos construtores do sistema solar se formaram há mais de 4 bilhões de anos. Além disso, Barnes espera que seu modelo ajude a estudar sistemas binários com três ou mais objetos — ampliando ainda mais nossa compreensão do cosmos distante.

Contudo, talvez o aspecto mais bonito dessa descoberta seja a simplicidade. Não precisamos de fenômenos exóticos ou catástrofes cósmicas para explicar os bonecos de neve do espaço. A gravidade, agindo devagar e com paciência, faz o trabalho sozinha.

Um Olhar Para o Futuro

A equipe de Barnes já trabalha em uma nova simulação que modela o processo de colapso com ainda mais detalhes. Dessa forma, será possível testar hipóteses ainda mais refinadas sobre a origem desses objetos fascinantes.

Por outro lado, a missão New Horizons continua sendo uma das fontes mais ricas de dados sobre o Cinturão de Kuiper. As imagens que ela nos enviou de Arrokoth transformaram nossa visão sobre os primórdios do sistema solar — e, portanto, sobre nossas próprias origens cósmicas.

Assim, cada vez que olhamos para um boneco de neve flutuando nas bordas do sistema solar, estamos, na verdade, olhando para o passado mais remoto da nossa vizinhança cósmica.

Será Que Há Muito Mais a Descobrir?

O Cinturão de Kuiper ainda guarda muitos segredos. Além dos binários de contato, há planetas anões, cometas adormecidos e talvez estruturas que nem imaginamos. Portanto, a pergunta que fica é: o que mais está lá fora, esperando para ser descoberto?

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FAQ — Perguntas Frequentes Sobre Bonecos de Neve no Espaço

O que são binários de contato?

São objetos espaciais formados por dois corpos esféricos unidos, com formato semelhante ao de um “boneco de neve”. Eles se originam quando dois planetesimais que orbitam um ao outro se aproximam gradualmente e se fundem de maneira suave.

Por que Arrokoth é tão importante para a ciência?

Arrokoth é o objeto mais distante e mais primitivo já explorado por uma nave espacial. Com cerca de 4 bilhões de anos, ele preserva características do início do Sistema Solar e oferece pistas valiosas sobre os processos de formação planetária.

Como os binários de contato se formam?

Segundo pesquisas recentes, eles se formam a partir do colapso gravitacional de uma nuvem de pequenos fragmentos sólidos (pebbles). Essa nuvem pode se dividir em dois corpos que passam a orbitar um ao outro e, com o tempo, se unem suavemente, sem colisões violentas.

Onde ficam esses objetos em formato de boneco de neve?

A maioria está localizada no Cinturão de Kuiper, uma região além da órbita de Netuno, onde objetos primordiais do Sistema Solar permanecem praticamente intocados há bilhões de anos.

Qual nave espacial fotografou Arrokoth?

A sonda New Horizons, da NASA, sobrevoou Arrokoth em 1º de janeiro de 2019, capturando as imagens mais detalhadas já registradas de um binário de contato no Cinturão de Kuiper.

Quantos planetesimais são binários de contato?

Estima-se que aproximadamente um em cada dez planetesimais no Cinturão de Kuiper apresente essa forma característica de dois lobos conectados.

O que essa descoberta significa para a astrofísica?

Ela reforça que o colapso gravitacional é um mecanismo comum e eficiente na formação de pequenos corpos do Sistema Solar, sem necessidade de eventos raros ou exóticos — explicando por que binários de contato são relativamente frequentes.

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Fonte: Artigo “Why some objects in space look like snowmen” Publicado em ras.ac.uk

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