A missão Artemis II está prestes a levar humanos de volta às proximidades da Lua pela primeira vez desde 1972. E o lado mais esperado dessa aventura não é apenas o voo em si, mas o que os astronautas vão enxergar ao sobrevoar o lado oculto do nosso satélite natural. Prepare-se porque o que está por vir vai ampliar os limites do que a humanidade já viu com os próprios olhos.
Além disso, esta missão não é apenas uma conquista tecnológica. Ela representa um momento histórico de reconexão entre a espécie humana e o Cosmos. Então, vamos entender o que torna esse sobrevoo tão especial do ponto de vista científico e emocional.

Crédito: NASA Scientific Visualization Studio
O que é o lado oculto da Lua e por que ele fascina tanto?
O lado oculto da Lua nunca enfrenta a Terra. Por conta do movimento de rotação sincronizada do nosso satélite, essa face permanece invisível a partir do solo terrestre. Portanto, por milênios, ela existiu apenas como mistério. Hoje, sondas robóticas já a fotografaram, mas nenhum ser humano a viu com os próprios olhos em condições de iluminação solar plena.
Esse hemisfério oculto é geologicamente diferente do lado que conhecemos. Enquanto o lado visível tem vastas planícies de lava endurecida — chamadas de mares lunares — o lado oculto apresenta uma crosta mais espessa, menos lava e uma quantidade muito maior de crateras. Dessa forma, estudar esse lado é como ler as primeiras páginas do livro da história do Sistema Solar.
A geometria do voo e os 20% iluminados
O sobrevoo está programado para durar aproximadamente seis horas. Contudo, a posição do Sol durante a passagem iluminará apenas 20% da superfície do lado oculto. Isso é menos do que os cientistas esperavam, mas ainda assim suficiente para observações inéditas e potencialmente transformadoras.
A nave Orion se aproximará a cerca de 6.600 quilômetros da superfície lunar. Nessa distância, a Lua terá o tamanho aproximado de uma bola de basquete segurada com os braços estendidos. Assim, os astronautas terão uma visão ampla e clara das regiões iluminadas.

As maravilhas geológicas que a tripulação vai observar
Segundo Kelsey Young, cientista lunar-chefe da missão Artemis II, a bacia Orientale está no topo da lista de prioridades científicas. Com 930 quilômetros de diâmetro, ela é a maior e a mais jovem das grandes crateras de impacto formadas durante o chamado Grande Bombardeio Tardio, que ocorreu há cerca de 4 bilhões de anos.
Por outro lado, a bacia não é apenas grande — ela é complexa. Seus três anéis concêntricos se formaram quando um asteroide gigante atingiu a Lua, vaporizando material que se espalhou como uma onda de maré e fez a crosta colapsou ao redor do ponto de impacto. Portanto, Orientale funciona como um modelo para entender como bacias de impacto se formam em outros planetas do Sistema Solar.
A cratera Ohm e a homenagem a um físico alemão
Outra formação que estará na rota iluminada é a cratera Ohm, com 64 quilômetros de diâmetro. Ela tem um pico central que emerge acima de fluxos de lava no seu assoalho. Além disso, ela nunca foi observada em condições de luz solar por olhos humanos — o que torna esse sobrevoo ainda mais significativo.
O nome homenageia Georg Ohm, o físico alemão famoso pela lei que relaciona tensão, corrente e resistência. Dessa forma, até a nomenclatura das crateras lunares conecta a exploração espacial ao legado da ciência terrestre.

Crédito: NASA / JMARS software
Pierazzo: uma cratera em memória de uma cientista pioneira
Com 9 quilômetros de diâmetro, a cratera Pierazzo leva o nome da cientista ítalo-americana Elisabetta Pierazzo, especialista em impactos e que faleceu em 2011 aos 47 anos. Assim, ao observar essa formação, os astronautas também prestam uma homenagem silenciosa a quem dedicou a vida a entender como o Cosmos molda mundos.

NASA / Universidade Estadual do Arizona / Clementine – Transferido da Wikipédia em inglês para o Commons. ( Texto original: JMARS )
O eclipse solar, o nascer da Terra e os flashes de meteoros
Por quase uma hora, os astronautas poderão observar um eclipse solar ao girar em torno do lado oculto. Nesse momento, a Lua bloqueará o Sol, e a tripulação terá a oportunidade única de fotografar a coroa solar — a tênue atmosfera externa do Sol, normalmente invisível a olho nu. Portanto, a Artemis II não é apenas uma missão lunar, mas também uma observação solar de alto valor científico.
Enquanto isso, a equipe também observará o lado escuro da Lua em busca de flashes luminosos causados por impactos de meteoritos. Esses eventos são raros, mas visíveis, e cada registro fornece dados sobre o fluxo de detritos espaciais que continua moldando a superfície lunar até hoje.
Além disso, a tripulação verá a Terra nascer e se pôr acima do horizonte lunar — um eco emocionante da icônica foto “Earthrise”, tirada pelos astronautas da Apollo 8 em 1968. Contudo, desta vez, a cena será vivida por uma nova geração, com novos olhos e novas ferramentas.
Como os astronautas vão registrar tudo isso
A tripulação da Artemis II está equipada com três câmeras Nikon, sendo uma delas com zoom de até 400 milímetros. Dessa forma, será possível capturar detalhes finos da superfície lunar, mesmo a milhares de quilômetros de distância. Os astronautas também carregam iPhones para registros mais informais e espontâneos.
O astronauta Jeremy Hansen descreveu a bacia Orientale como “enorme, supercomplexa — dá para ficar olhando por horas”. Portanto, mesmo com tempo limitado, a missão promete trazer imagens e percepções que vão além das obtidas por sondas robóticas. O olhar humano percebe nuances de cor, sombra e textura que algoritmos ainda têm dificuldade de capturar.
Segundo a cientista lunar Juliane Gross, a expectativa é de um verdadeiro “momento humano” — uma experiência de imersão que vai além da ciência e toca algo essencial na nossa relação com o Universo.

Crédito: NASA / Kelsey Young
Por que essa missão importa para o futuro da exploração lunar
A Artemis II não pousará na Lua. Contudo, ela é o passo essencial antes do pouso histórico planejado para missões futuras. Trata-se de testar o sistema completo — nave, tripulação, trajetória — em condições reais de voo lunar. Além disso, as observações científicas feitas durante o sobrevoo vão informar onde e como explorar a superfície nas próximas missões.
Por outro lado, há um valor simbólico inestimável. Ver humanos voltando à Lua, vivos, saudáveis e maravilhados com o que encontram, reacende o sonho coletivo da exploração espacial. Assim, cada imagem transmitida da Orion será uma mensagem para a humanidade: ainda estamos indo para frente.
Um novo capítulo começa aqui
A Artemis II marca o retorno dos seres humanos ao entorno lunar após mais de cinco décadas. O que os astronautas verão no lado oculto da Lua não é apenas ciência — é poesia cósmica. Crateras com bilhões de anos de história, um eclipse solar no meio do espaço, a Terra nascendo sobre um horizonte deserto. Portanto, cada segundo desse sobrevoo é um presente para a humanidade.
E você, que acompanha essa jornada da Terra, também faz parte disso. Afinal, quando olhamos para o Cosmos com curiosidade e admiração, somos todos, à nossa maneira, exploradores.
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Perguntas frequentes sobre a missão Artemis II
O que é a missão Artemis II?
É a primeira missão tripulada da NASA a orbitar a Lua desde o programa Apollo, em 1972. Ela não realiza pouso, mas testa a nave Orion com astronautas a bordo em uma trajetória lunar.
Quando a Artemis II vai sobrevoar a Lua?
O sobrevoo do lado oculto está programado para 6 de abril de 2026, com duração aproximada de seis horas.
O que os astronautas vão ver no lado oculto da Lua?
Entre os destaques estão a bacia Orientale, a cratera Ohm, a cratera Pierazzo, além de um eclipse solar e o fenômeno do nascente terrestre sobre o horizonte lunar.
Por que o lado oculto da Lua é diferente do lado visível?
O lado oculto tem crosta mais espessa, menos lava e muito mais crateras. Ele nunca enfrenta a Terra por conta da rotação sincronizada da Lua.
A Artemis II vai pousar na Lua?
Não. A missão é um sobrevoo para testar sistemas e equipamentos. O pouso humano na Lua está previsto para missões posteriores do programa Artemis.
Quem são os astronautas da Artemis II?
A tripulação inclui Jeremy Hansen e Reid Wiseman, entre outros. Hansen é astronauta da Agência Espacial Canadense e Wiseman é comandante da NASA.
O que é a bacia Orientale?
É uma cratera de impacto com 930 km de diâmetro, localizada na borda entre os dois lados da Lua. É a maior e mais jovem bacia de impacto do período do Grande Bombardeio Tardio.
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Internos
- O Que é o Programa Artemis da NASA?
- Artemis II: O Retorno da Humanidade ao Espaço Profundo e a Nova “Bolinha de Gude”
Externos
Fonte: Artigo “What Artemis II’s astronauts will look for on the Moon’s far side” Publicado em Nature.com
