Imagine um anel gigante ao redor da Terra, mas não aqueles anéis bonitos de Saturno. Estamos falando de 500 mil fragmentos de metal, vidro e plástico viajando a velocidades absurdas, prontos para transformar qualquer satélite em sucata espacial. Esse é o lixo espacial, e pesquisadores brasileiros da Unesp acabam de desenvolver um modelo que pode salvar futuras missões ao espaço.
Desde 1957, quando a União Soviética lançou o Sputnik 1, nossa obsessão por conquistar o espaço deixou um rastro nada glamoroso. Além disso, oito décadas de exploração espacial criaram um problema que cresce exponencialmente: um cemitério orbital que ameaça desde satélites de comunicação até os planos de colonizar Marte.

O Caos Orbital: Números Que Assustam
A Agência Espacial Europeia contabilizou mais de 6.000 lançamentos desde o início da corrida espacial. Contudo, o que muita gente não percebe é que cada foguete, cada satélite desativado e cada colisão no espaço gera milhares de novos detritos.
Os números são impressionantes: cerca de 500 mil fragmentos entre 1 cm e 10 cm orbitam nosso planeta neste exato momento. Quando consideramos pedaços menores que 1 mm, esse número explode para mais de 100 milhões. Portanto, estamos literalmente cercados por uma nuvem de destroços viajando a mais de 28.000 km/h.
Dessa forma, qualquer colisão no espaço não é como um acidente de carro. É muito pior. A velocidade extrema transforma até uma lasca de tinta em um projétil letal capaz de perfurar a blindagem de um satélite.
Quando o Lixo Espacial Volta para Casa
Em 2022, moradores de São Mateus do Sul, no Paraná, tiveram uma surpresa inesperada: um pedaço de foguete da SpaceX caiu a apenas 100 metros de uma residência. Enquanto muitos objetos se desintegram na atmosfera ou caem no oceano, alguns escolhem rotas menos convenientes.
Esses episódios de reentrada, porém, são apenas a ponta do iceberg. O verdadeiro problema está acontecendo lá em cima, onde nossos olhos não alcançam. Por outro lado, os cientistas sabem que a gravidade da Terra pode alterar as órbitas desses detritos de forma imprevisível, criando rotas de colisão mortais.

Créditos: Jocimar Justino / BRAMON
Ressonância Orbital: O Efeito Invisível Que Muda Tudo
Liderados pelo matemático Jorge Kennety S. Formiga, pesquisadores da Unesp desenvolveram um modelo revolucionário para identificar quais objetos são mais vulneráveis a um fenômeno chamado ressonância orbital. Assim, conseguiram mapear as zonas mais perigosas ao redor da Terra.
A ressonância orbital funciona como um balanço: pequenos empurrões gravitacionais repetidos podem causar grandes mudanças na trajetória de um objeto. Segundo o estudo publicado no Journal of Space Safety Engineering, alterações de apenas 50 metros já são suficientes para aumentar drasticamente o risco de impacto.
O grupo focou em detritos com ressonância 15:1, ou seja, objetos que completam 15 voltas ao redor da Terra enquanto o planeta gira apenas uma vez. Além disso, concentraram as análises na órbita terrestre baixa (LEO), região abaixo de 2.000 km de altitude, justamente a área mais congestionada do espaço.

A Terra está cercada por milhares de satélites que realizam trabalhos essenciais — fornecendo serviços de telecomunicação e navegação, ajudando-nos a compreender o clima e a responder a questões fundamentais sobre o Universo.
No entanto, à medida que o uso do espaço acelera como nunca antes, esses satélites passam a navegar em órbitas cada vez mais congestionadas, em um ambiente cruzado por fluxos de fragmentos de detritos que se movem em alta velocidade — resultado de colisões, fragmentações e destruições no espaço.
A representação colorida dos detritos na imagem mostra a quantidade de objetos de diferentes tamanhos, além dos satélites ativos modelados em órbita ao redor da Terra em agosto de 2024.
Cada fragmento tem o potencial de danificar outros satélites, alimentando o temor de que uma cascata de colisões possa, eventualmente, tornar algumas órbitas terrestres inutilizáveis. Além disso, ainda não se sabe ao certo a extensão dos danos causados pelo aumento drástico no número de lançamentos e de objetos que reentram em nossa atmosfera e oceanos.
A Síndrome de Kessler: Nosso Pior Pesadelo Espacial
Donald J. Kessler, consultor da NASA, previu um cenário apocalíptico nos anos 1970. A síndrome que leva seu nome descreve um efeito dominó catastrófico: cada colisão gera novos fragmentos, que aumentam a probabilidade de novas colisões, criando um ciclo descontrolado.
No pior cenário, teríamos tantos detritos orbitando a Terra que futuras missões espaciais se tornariam praticamente impossíveis. Portanto, estaríamos aprisionados no nosso próprio planeta por uma prisão feita de lixo. Enquanto isso, satélites essenciais para GPS, internet e previsão do tempo ficariam extremamente vulneráveis.
Por esse motivo, agências espaciais começaram a documentar características e órbitas de fragmentos acima de 10 cm. Dessa forma, planejadores podem determinar quais áreas precisam de monitoramento mais rigoroso ou devem ser simplesmente evitadas.
Zonas de Perigo: Onde o Caos Acontece
Utilizando a base de dados CelesTrak, amplamente reconhecida por operadores de satélites, os pesquisadores simularam a evolução de 210 órbitas ao longo de 33 anos. Os resultados foram surpreendentes: os principais picos de ressonância ocorrem em uma faixa estreita de apenas 4 km, entre 563 km e 599 km de altitude.
Contudo, o mais impressionante é que, saindo dessa faixa específica, o efeito praticamente desaparece. Assim, pequenas distâncias podem ter impactos gigantescos na segurança orbital. Além disso, o estudo revelou que em órbitas muito inclinadas (63,4° e 87°), a ressonância pode não aparecer imediatamente, mas apenas após centenas de dias.
Segundo Formiga, quando detritos orbitam próximos uns dos outros, qualquer alteração pode ser fatal. Uma variação de 50 metros pode parecer insignificante no vasto espaço, mas é suficiente para encerrar uma missão espacial multimilionária e gerar ainda mais destroços.

Brasil Entra na Luta Contra o Lixo Espacial
Em 2024, o Brasil deu um passo importante ao iniciar a implementação de uma rede de telescópios dedicada exclusivamente ao monitoramento de lixo espacial. Dessa forma, o país poderá proteger seus próprios satélites e contribuir para o esforço global de gestão de detritos orbitais.
Conhecendo as características orbitais de cada detrito, torna-se possível descobrir de qual ressonância ele está próximo. Portanto, missões futuras podem ser planejadas de forma mais assertiva, evitando zonas de risco identificadas por estudos como o da Unesp.
Por outro lado, Formiga reforça que monitoramento sozinho não basta. É necessário implementar planos de limpeza espacial urgentemente. Segundo o pesquisador, o estrago já foi feito, e agora precisamos lidar com as consequências: órbitas congestionadas e risco crescente de colisões catastróficas.
Missões de Limpeza: Ficção Virando Realidade
Enquanto várias agências espaciais desenvolveram projetos de limpeza orbital, nenhuma missão foi efetivamente implementada até agora. Contudo, a Agência Espacial Europeia, em parceria com a startup suíça ClearSpace, está mais próxima de fazer história.
A missão ClearSpace-1, prevista para 2026, utilizará uma espaçonave equipada com quatro braços robóticos. O objetivo é capturar um pedaço de foguete desativado e arrastá-lo de volta para a atmosfera, onde será queimado durante a reentrada. Assim, seria a primeira vez que a humanidade remove deliberadamente lixo espacial da órbita.
Essa iniciativa representa um marco crucial, pois demonstra que é tecnicamente possível limpar o espaço. Além disso, abre caminho para futuras missões em escala maior, essenciais para reverter décadas de acúmulo de detritos.

O Futuro da Exploração Espacial Está em Jogo
Aproximadamente 95% dos objetos orbitando a Terra hoje são lixo espacial. Apenas 5% são satélites ativos cumprindo funções essenciais para nossa civilização. Portanto, estamos literalmente cercados por nosso próprio descuido tecnológico.
O estudo da Unesp oferece ferramentas valiosas para gestores e planejadores de missões espaciais. Identificar regiões sensíveis à ressonância orbital permite traçar rotas mais seguras e reduzir significativamente os riscos de colisão. Dessa forma, podemos continuar explorando o cosmos sem transformar o espaço ao redor da Terra em um campo minado intransponível.
Por fim, a mensagem é clara: ou começamos a limpar e organizar nosso lixo espacial agora, ou arriscamos ficar presos na Terra por décadas, assistindo nossos sonhos de exploração espacial desmoronarem junto com satélites destroçados.
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Perguntas Frequentes
O que é lixo espacial?
São fragmentos de satélites, foguetes e outros objetos criados pela atividade humana no espaço, incluindo pedaços de metal, vidro, tinta e plástico que orbitam a Terra em alta velocidade.Quantos detritos espaciais existem atualmente?
Existem cerca de 500 mil fragmentos entre 1 cm e 10 cm, mas quando contamos pedaços menores que 1 mm, o número ultrapassa 100 milhões de detritos orbitando nosso planeta.O que é a síndrome de Kessler?
É um cenário onde colisões entre detritos espaciais geram novos fragmentos, criando um efeito dominó que pode tornar certas órbitas inutilizáveis e comprometer futuras missões espaciais.O que é ressonância orbital?
É um fenômeno onde pequenos empurrões gravitacionais repetidos alteram a trajetória de objetos no espaço, podendo causar mudanças significativas em suas órbitas ao longo do tempo.Como o Brasil está combatendo o lixo espacial?
Em 2024, o Brasil iniciou a implementação de uma rede de telescópios para monitorar detritos espaciais, permitindo proteger satélites nacionais e contribuir para o esforço global de gestão orbital.Quando teremos a primeira missão de limpeza espacial?
A missão ClearSpace-1 da Agência Espacial Europeia está prevista para 2026 e será a primeira tentativa de remover deliberadamente lixo espacial da órbita terrestre.Qual o perigo do lixo espacial para satélites?
Viajando a mais de 28.000 km/h, até fragmentos pequenos podem destruir satélites em colisões, comprometendo serviços essenciais como GPS, telecomunicações e previsão meteorológica.Fonte: Artigo “Pesquisadores da Unesp desenvolvem modelo para monitorar lixo espacial em órbita da Terra” publicado em jornal.unesp.br
